Sonhando com trem
Em si, o Trem Azul é um trem mesmo. Mas em si bemol, como as canções em tons menores, é mais do coração, porque nasceu ao despertar de um sonho musical. Foi assim: estava dormindo e ouvi um apito de trem, só que eu moro em São Paulo, no Itaim-Bibi, onde teoricamente não há ferrovia.

Mas tem sim, e antiga, muito antiga. É aquela estrada de ferro margeando o Rio Pinheiros, que mal aparece tamanha a grandiosidade e movimento da avenida Marginal Pinheiros. Na verdade é antiga e importante, porque por ela se chegava ao litoral, em Santos. Fiz a viagem no tempo dos trens antigos, que desciam a Serra do Mar, e a certa altura havia um sistema de cremalheiras que seguravam a composição num inclinadíssimo trecho. Fiz outra tempos depois, já numa composição mais moderna, que se chamava Litorina, porque ia para o litoral. Viagem muito bonita. E anos atrás fiz de moto o percurso da ferrovia já abandonada. Impressionante.

Voltando, acordei com o apito de trem e fiquei intrigado, porque esquecido da ferrovia que passa a uns cem metros, se tanto, do meu apê. Foi muito gostoso, coisa marcante no começo da minha vida, às vezes morando e outras passando temporadas no interior. Sempre escutando os apitos que eram quase relógios, porque os trens de passageiros passavam nas mesmas horas.

Cheguei também a conhecer bem de perto a rotina dos velhos trens maria-fumaça, quando era muito pequeno e passava férias na casa de meu avô materno, um italiano que veio de navio a vapor para o Brasil em 1904. O cara ficou muito rico, e apaixonado por máquinas sempre fez questão de ter seus negócios e fazendas perto de estradas de ferro. Nem só por ele, pois todo imigrante que foi fazer a vida no interior do Estado de São Paulo seguiu o caminho das ferrovias, que se abriam no começo do século passado. Mas ele era demais. Até a usina de força de uma grande serraria que ele tinha era a caldeira de uma locomotiva a vapor. Tanto a serraria como sua casa eram em frente à estação ferroviária da minúscula cidade, e tinha uma variante, um ramal de trilhos que entrava na serraria dele.

Então, aquele apito que ouvi, em pleno Itaim-Bibi em São Paulo, além da saudade me deu a idéia: meu blog, que se chamava Don Thomaz do Baixo Itaim-Bibi, e que tratava da vida no bairro da paulicéia, mudou de nome. Para Trem Azul, que me deixava escrever sobre o que quisesse.

Mas ao olhar a imagem aí acima, que legendei Sonho com Trem, achei que já havia sonhado com ela, sei lá, talvez porque me ache um trem. Afinal gosto mais de ser chamado de Trem Azul que de Thomaz. E faz sentido, porque meu trem vive de gentes e eu tenho sempre a sensação que ele anda mesmo apoiado por pessoas. Lá no começo, eu disse musical o sonho donde nasceu o Trem Azul. Pois é, apito de trem para mim é música.
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